País com maior impacto ambiental, Qatar investe em sustentabilidade para sobreviver
A pegada ecológica mede o impacto do país no ambiente, dividido pelo número de habitantes. A população do Qatar é de 1,6 milhão (um pouco mais do que a Grande Campinas). Então, ao se fazer a conta, a pegada do país vai às alturas. Além de usar este argumento, as autoridades do país ainda se defendem de serem taxados como "grandes poluidores" ao afirmar que a população de nativos é de cerca de 300 mil pessoas e que os consumidores dos combustíveis é que deveriam ser responsabilizados por seu dano ao ambiente. Japão e EUA e Inglaterra são seus principais parceiros comerciais.
Desde 2004, a população dobrou e a perspectiva é de que alcance os 2 milhões já em 2015 e 3,5 milhões em 2030. Entretanto, até sua independência em 1971 e a posterior descoberta das reservas, a população era restrita a poucos qatarenses que sobreviviam da pesca e da extração de pérolas no escaldante calor de 50ºC e terreno desértico. Foi a exportação de combustíveis fósseis que fez o país ser o que é hoje: moderno, com um dos maiores PIB per capita do mundo e com crescimento de 18,5% em 2010.
A disponibilidade de dinheiro no país é perceptível em diversos níveis; desde os prédios luxuosos, serviços de primeiro mundo, até o pesado investimento em energias renováveis. Em 2008, o Qatar lançou um relatório para traçar o desenvolvimento sustentável que pretendem atingir até 2030.
A questão principal no país é a falta de água doce. O estoque de água potável é de apenas dois dias e além, de ir para a casa das pessoas, ainda abastece a parca agricultura local. O país tem só 1% de terras agricultáveis e mais de 90% de seu alimento é importado. Fahad Bin Mohammed Al-Attiya, chairman do Programa de Segurança Alimentar do Qatar, diz que por lei os fazendeiros devem usar tecnologia de ponta para produzir comida. E aí entra a dessalinização da água do mar. É assim que 75% da água do país e a maioria das fazendas consegue água.
O plano é investir em energias renováveis para dessalinizar a água, usá-la na agricultura e ter alimento produzido no país. "Comida não é para ser exportada. 100% é para consumo interno", explica o chairman.
Além da necessidade de fornecer água, o investimento do Qatar em energias renováveis também é estratégica. Al-Attiya afirma que o objetivo do pais é ser líder em tecnologia verde. Com o estímulo cada vez maior para a transição mundial para uma economia verde, ser líder nesta área é garantia de lucro no futuro.
Carl Atallah, diretor da Chevron no Qatar e o responsável pela maior pesquisa no país com energia solar diz que o gás não será substituído tão cedo. "A decisão política pesa mais do que o custo, porque o hás aqui é muito barato. Para competir é preciso vontade política", diz. O custo atual é de US$ 0,80 por watt.
A vitrine do governo do Qatar na área é a revitalização do centro de Doha em um bairro sustentável. O projeto de 5,5 bilhões de dólares, que deve terminar só em 2016, começou em 2010 e deve ter sua primeira fase entregue este ano. Msheireb, como é chamado o projeto, significa um lugar para beber água. A arquitetura da região é baseada nas construções históricas que existiam ali desde 1940, das quais poucas estão de pé até hoje.
Foi feito um concurso internacional para escolher os melhores projetos para a área de 700m por 500m que vai contar com 100 prédios, entre escolas, prédios comerciais e residências. A ideia é fazer um lugar para as pessoas andarem a pé, com isso um estacionamento gigante (11 mil vagas) está sendo construído no subsolo, assim como uma estação de metrô bem na praça principal.
O país ainda pretende investir 35 bilhões de dólares este ano para a construção do metrô, que ligará toda a cidade e países do Golfo. O transporte público com baixo impacto ambiental também poderá ser usada para o transporte de comida.
A arquitetura dos prédios e das ruas está sendo feita para aproveitar melhor o vento que vem do mar, para refrescar, e também a luz solar, para iluminação. O conforto dos moradores, com acesso a pé à escola, trabalho e diversão também é considerado. Toda a água será reaproveitada para reduzir o desperdício.
Todo o bairro terá um sistema central de ar condicionado sob o solo e fornecimento de água energia para ser mais eficiente e será certificado com selo verde. Comportará 2.500 moradores, que poderão alugar as casas e apartamentos quando ficarem prontos.Na primeira fase, apenas prédios do governo serão entregues.
Mas e a energia e água usada em toda a cidade, será produzida lá mesmo para o bairro ser realmente sustentável? A resposta, que sai a duras custas dos representantes do projeto, é: a energia e a água serão as mesmas da cidade de Doha, baseada na queima de combustíveis fósseis, informa o diretor do projeto, o americano Rick Calandros.
Redução das emissões
Além do grande investimento em adaptação ao clima, o Qatar também desenvolve projetos de mitigação, ou seja. de redução de suas emissões de gases do efeito estufa. O foco, além de fazer bem ao meio ambiente, é o desenvolvimento de tecnologia de ponta e da venda de crédito de carbono.
Al-Attiya afirma que o país tem potencial de implementar tecnologias a que outras partes do mundo não têm acesso. Com isso, eles desenvolvem e testam as mais modernas placas solares, por exemplo.Ele chega a comparar a importância do desenvolvimento de uma energia renovável que seja rentável e acessível à chegada do homem na Lua.
Uma das iniciativas mais propagadas do governo é a redução do flare (a queima do gás residual que não atinge qualidade para ser comercializado), que representava 12% das emissões do país em 2006. Desde 2007, quando o projeto de redução das emissões foi apresentado para ser um mecanismo de crédito de carbono, o governo diz ter cortado 90% das emissões. O projeto está agora em etapa de validação e se for aprovado, o Qatar poderá receber dinheiro pelas emissões evitadas.
O mecanismo é usado em 1/3 da produção do país, no campo de Al Shaheen, que produz 1 bilhão de barris de petróleo. Consiste em canalizar o gás que antes era queimado em um sistema de 90km.
O país afirma produzir apenas 0,2% de todas as emissões de carbono do mundo e estar na posição 60º, em 2006, sendo que sua principal fonte de emissão é pela extração e produção de petróleo e gás.
Dede 1990 as emissões do país triplicaram, só de 2001 a 2006 o aumento foi de 47%. Em petróleo e gás o aumento foi de 186%, no período.
Fonte: UOL
#sustentabilidade
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